Projeto em Caucaia soma-se ao empreendimento da chinesa ByteDance e leva investimentos anunciados em data centers no Ceará a mais de R$ 380 bilhões.
O Ceará consolidou nas últimas semanas sua posição como um dos principais destinos do país para investimentos em infraestrutura digital de grande porte. O Conselho Nacional das Zonas de Processamento de Exportação (CZPE) aprovou o projeto da Voltalia Energia do Brasil para a construção de um data center na Zona de Processamento de Exportação (ZPE) do Pecém, em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza. O investimento previsto é de R$ 181,7 bilhões, valor que faz do empreendimento francês o maior entre os cinco projetos industriais e de serviços aprovados recentemente pelo colegiado para as ZPEs de Pecém, no Ceará, Bacabeira, no Maranhão, e Parnaíba, no Piauí.
Capacidade projetada de mais de 300 megawatts
Segundo as informações divulgadas pelo governo federal, o data center da Voltalia terá capacidade projetada de aproximadamente 322 megawatts, volume de energia comparável ao consumo de uma cidade de médio porte. A empreendedora francesa, especializada em geração de energia renovável, já havia avançado em uma etapa essencial para viabilizar um projeto dessa escala: em junho deste ano, a companhia anunciou a contratação, junto ao sistema elétrico brasileiro, de 322 megawatts de capacidade de conexão à rede, destinada especificamente à instalação de data centers no Complexo do Pecém. A aprovação mais recente do CZPE, portanto, não marca o início da presença da empresa na região, mas amplia uma carteira de investimentos que já vinha sendo construída ao longo dos últimos meses.
A expectativa é de que a implantação do empreendimento gere cerca de 2,3 mil empregos diretos durante a fase de obras, além de outros 400 postos permanentes quando a operação estiver em funcionamento. O projeto ainda depende de etapas adicionais, entre elas o licenciamento ambiental, antes que as obras de construção possam de fato começar no terreno destinado ao empreendimento na ZPE Ceará.
Segundo gigante a escolher o Pecém em poucos meses
O projeto da Voltalia chega poucos meses depois de o Complexo do Pecém já ter atraído outro investimento de grande porte no setor de data centers, ligado à chinesa ByteDance, controladora do aplicativo TikTok. Somados, os dois empreendimentos, de empresas de países e setores diferentes, chegam a mais de R$ 380 bilhões em investimentos anunciados para infraestrutura digital no Ceará. Não existe relação societária ou operacional entre os dois projetos: o que há, segundo analistas do setor, é uma convergência de escolhas, na qual companhias distintas identificam no Pecém as mesmas vantagens competitivas para instalar estruturas de escala global.
É importante destacar que os valores anunciados representam investimentos previstos para projetos que serão implantados e ampliados ao longo de vários anos, e não recursos já efetivamente desembolsados ou contratados em sua totalidade. Projetos de data centers dessa magnitude costumam dividir os aportes entre a construção da infraestrutura física, como prédios, subestações e sistemas de refrigeração, e os equipamentos de tecnologia da informação que serão instalados posteriormente pelas empresas que efetivamente utilizarão a capacidade computacional disponibilizada. No caso da Voltalia, a companhia ainda busca parceiros comerciais para ocupar essa capacidade: em junho, a empresa afirmou estar em discussões avançadas com diversos operadores de data centers interessados na estrutura.
Por que o Pecém atrai investimentos dessa escala
O principal atrativo do Complexo do Pecém para esse tipo de empreendimento não está apenas na disponibilidade de terreno ou na infraestrutura industrial já consolidada na região. A combinação entre energia renovável abundante, infraestrutura elétrica robusta, conectividade internacional por meio de cabos submarinos, presença de uma Zona de Processamento de Exportação e localização estratégica na costa do Nordeste forma um conjunto de vantagens que poucos pontos do país conseguem reunir simultaneamente. Data centers de grande porte consomem volumes expressivos de energia de forma contínua, e no Ceará a expansão da geração eólica e solar tem conseguido acompanhar o crescimento da demanda por infraestrutura computacional, um fator decisivo para empresas que buscam reduzir a pegada de carbono de suas operações.
O projeto da Voltalia também prevê a utilização de água de reúso nos sistemas de refrigeração do empreendimento, estratégia que dialoga diretamente com outras iniciativas em curso no Complexo do Pecém voltadas à segurança hídrica da região. Como o Ceará enfrenta limitações naturais na disponibilidade de água, o aproveitamento de água tratada para uso industrial tem se tornado um componente cada vez mais presente nos projetos de grande porte que buscam se instalar no estado, reduzindo a pressão sobre os mananciais tradicionais utilizados pela população.
Debate no Congresso pode ampliar incentivos ao setor
A aprovação do projeto da Voltalia também repercutiu no Congresso Nacional, onde tramitam propostas voltadas a ampliar os incentivos para o setor de data centers, com atenção especial às regiões Norte e Nordeste do país. Um dos projetos em discussão, o PL 490/2026, autoriza a União a criar instrumentos de estímulo ao fornecimento de energia limpa e competitiva para data centers instalados nessas regiões e institui um selo chamado “Data Center Verde Regional”. A proposta já avançou na Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação da Câmara dos Deputados.
Outro eixo dessa movimentação legislativa é o PL 305/2026, que cria o Programa de Desenvolvimento de Data Centers Regionais, batizado de Prodata Brasil, iniciativa que busca criar condições mais favoráveis para atrair investimentos em infraestrutura digital voltados especificamente para o Norte e o Nordeste. Segundo especialistas acompanhando o tema, a lógica por trás dessas propostas é direta: já que os grandes data centers dependem de fornecimento de energia abundante e competitiva para funcionar, o Nordeste busca transformar sua liderança na geração renovável em vantagem concreta para atrair um volume ainda maior de investimentos do setor nos próximos anos.
O que o avanço significa para Caucaia e a Região Metropolitana
Para o município de Caucaia, onde o data center da Voltalia será instalado, a chegada de um projeto dessa magnitude representa também a expectativa de abertura de oportunidades para empresas e trabalhadores locais, tanto durante a fase de obras quanto na etapa de operação do empreendimento. A experiência de outros projetos já em construção no Complexo do Pecém tem mostrado que iniciativas desse porte costumam gerar movimentação econômica relevante para fornecedores da região, mesmo antes da conclusão das obras, à medida que empresas cearenses passam a integrar a cadeia de contratos ligados à construção da infraestrutura.
Com a aprovação do CZPE garantida, o próximo passo do projeto da Voltalia envolve as etapas de licenciamento ambiental, processo que costuma envolver análises técnicas sobre o impacto da obra na região e que deve determinar o cronograma efetivo de início das obras no terreno da ZPE Ceará. Enquanto isso, o Ceará segue ampliando sua carteira de investimentos no setor de tecnologia, consolidando o Complexo do Pecém como um dos polos mais relevantes do país na disputa por infraestrutura digital de escala internacional, um movimento que deve continuar sendo acompanhado de perto tanto pelo governo estadual quanto pelo Congresso Nacional nos próximos meses.
Fontes consultadas:
- https://focuspoder.com.br/depois-da-chinesa-bytedance-agora-e-a-francesa-voltalia-que-investe-em-mega-data-center-no-pecem/
- https://portalceara.jor.br/caucaia-atrai-investimento-de-r-1817-bilhoes-para-novo-data-center/
- https://www.danielnunes.net.br/2026/09/ceara-vira-rota-dos-bilhoes-da-ia.html
- https://focuspoder.com.br/data-centers-congresso-comeca-a-discutir-politica-para-setor-que-ja-movimenta-mais-de-r-380-bilhoes-no-ceara/